Bem-vindo, 2015 | Por Marcelo Freixo
Sinceramente gostaria de um ano novo! Na manhã desta última
quinta-feira, no Méier, zona norte do Rio de Janeiro, Patrick Ferreira de
Queiroz, 11 anos, foi morto pela polícia. Ele completaria 12 anos no próximo
sábado.
O caso foi registrado como auto de resistência. Segundo os
policiais, na mochila de Patrick encontraram dinheiro, drogas, uma pistola e um
rádio transmissor. Segundo Daniel de Queiroz, pai de Patrick, seu filho nunca
esteve envolvido no tráfico, era medroso e estava matriculado na escola.
Boa parte dos jornais e rádios trataram do assunto no dia de
hoje. O debate foi marcado fundamentalmente sobre a possibilidade de Patrick
estar ou não envolvido com o tráfico. Isso de alguma maneira poderia nos trazer
certo conforto ou naturalização perante mais uma morte? Inacreditável!!!!!!
Estamos diante de uma tragédia! Sim, uma TRAGÉDIA!!!!!
Tragédia na manchete do jornal Extra que já crava a condenação do menino como
traficante, tragédia na centralidade do debate sobre o envolvimento ou não do
menino com o crime. Se Patrick estava no tráfico temos uma tragédia, se ele não
estava e foi morto temos uma tragédia, se os policiais forjaram o auto de
resistência temos uma tragédia, se ele foi confundido e morto temos uma
tragédia.
Não existe possibilidade do caso ser tratado com qualquer
grau de normalidade. Estamos falando de uma criança de 11 anos de idade. É
isso! Uma criança de 11 anos de idade perdeu a vida desta forma. Na sua mochila
deveria ter livros, lápis, caderno e sonhos.
No último mapa da violência, registramos 56 mil homicídios no
ano, dos quais 30 mil são de jovens, sendo que 77% desses são negros. Vivemos
um genocídio sobre a população jovem e negra.
Esse debate não pode continuar sendo secundário diante da
criminalização das vítimas como forma de se naturalizar a barbárie. Lembro
perfeitamente de uma mãe que certo dia entrou na comissão de direitos humanos
da ALERJ, olhou nos meus olhos e disse " mataram o meu filho e ele nem era
bandido". Na hora não sabia o que dizer para aquela pessoa completamente
destruída. O que ela queria me dizer é que se fosse bandido, ela não estaria
ali. Triste, muito triste.
Sinceramente, acho muito pouco provável que consigamos
esclarecer o que realmente aconteceu nesta manhã de quinta. Fato é que perdemos
mais uma criança para a barbárie, mais uma vida. Perdemos também a chance de
darmos um trato mais digno ao assunto, olharmos de forma mais pedagógica e
menos criminalizadora da pobreza.
Talvez o maior problema do mundo hoje não
seja o da ameaça à liberdade de expressão, mas o da nossa responsabilidade
diante desta "liberdade". O mundo vai além do que cabe nas páginas
dos nossos jornais. Que venha 2015!











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