A opção das crianças e a maioridade penal

Na tarde desta sexta-feira tive a oportunidade de registrar um momento que somente me deixa mais convicto em posicionar radicalmente contra a proposta de redução da maioridade penal

Geralmente os defensores desta proposta argumentam que se um jovem de 16 anos pode votar e é capaz de cometer crimes bárbaros como os adultos criminosos, esses têm que responder como se fossem maiores de 18 anos. O discurso de ódio nos leva a imaginar que esses adolescentes já nasceram com o destino selado no mundo do crime, ou como se fosse uma mera opção deles por este caminho.

Outro aspecto bastante esclarecedor sobre a inviabilidade da redução da maioridade penal está no próprio sistema carcerário e de execuções penais no Brasil, se as estatísticas apontam que SETENTA POR CENTO dos detentos voltam a cometer crimes depois de soltos, temos a absoluta convicção que a redução da maioridade penal irá aumentar a população carcerária que tornará a cometer crimes depois de soltos, a criminalidade somente tende a aumentar se criminalizarmos nossas crianças.

A fotografia que ilustra esta matéria a partir deste parágrafo registra um grupo de crianças brincando de Folia de Reis na zona mais periférica do bairro Silvana em Bom Jesus do Norte, popularmente conhecido como “Beira-linha”, o que já foi o suficiente para chamar a atenção quando eu passava de carro a ponto de manobrar e retornar para não perder esta maravilhosa cena. 

Eles quando perceberam a câmera posicionada ficaram ainda mais eufóricos com a diversão.

O que despertou a atenção foi a diversão escolhida por este grupo de crianças, normalmente as brincadeiras de infância se concentram em bolas de gude, piques, futebol, queimada dentre tantos que nós mesmos brincamos em nossa infância, porém este grupo de crianças estavam se divertindo em uma manifestação cultural riquíssima de nossa história. Eles brincavam de Folia de Reis, onde encenavam com impressionante semelhança os tradicionais grupos de Folia, mesmo que eles tivessem improvisado os instrumentos musicais com latas.

Apesar desta cena ser encantadora, ao mesmo tempo ela nos revela que essas crianças já estão abandonadas pelo poder público e suas instituições de políticas sociais para crianças e jovens periféricos, ao registrar que eles brincavam de Folia de Reis no meio da rua, é sinal que tal ato foi de iniciativa única e exclusiva dessas crianças, talvez com o auxílio dos pais de alguns na elaboração das fantasias. 

Tranquilo ficaria se esta manifestação tivesse o acompanhamento de oficinas de artes, cursos de artesanatos e com o constante contato do Conselho Tutelar com os pais dessas crianças periféricas.

O que mais preocupa nesta situação de abandono é que o local em que foi registrado a cena é um notório ponto de venda de drogas no bairro

Digo isso que em setembro de 2014 eu estava neste mesmo local registrando umas imagens para uma reportagem reivindicatória, quando fui abordado por uma guarnição da Polícia Militar que me arguiu o que eu fazia naquele local, respondi a eles, e os mesmos me alertaram para ter cuidado, pois ali é um dos locais mais violentos de Bom Jesus do Norte devido ao tráfico de drogas.
Como todos podem observar, mesmo estando próximo do tráfico de drogas e abandonadas pelo poder público, essas crianças fizeram a opção não pelo crime ou pelo tráfico, elas estão optando em se divertirem manifestando cultura, arte e tradição, que talvez os tenham influenciados nos dias de Reis no início de janeiro.


Eles não estavam brincando de polícia e bandido, eles não portavam armas de brinquedo, e sim fantasias e instrumentos musicais improvisados

O lamentável que crianças como essas em todo País estão vulneráveis ao mundo do crime devido as condições de vida que enfrentam desde o nascimento, hoje eles estão se divertindo e encantando pela cultura, porém eles um dia podem estarem sendo influenciados pela tentação do dinheiro fácil do crime e se perderem na vida.
Se o poder público estivesse próximo dessas crianças, certamente que a oportunidade de explorar e incentivar o interesse das mesmas pelas manifestações culturais e populares os livrariam da necessidade de se debater a proposta de redução de maioridade penal.

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